Prepare-se para as Cidades Inteligentes

Como soluções tecnológicas vêm aumentando a eficiência dos serviços e da infraestrutura de centros urbanos e se tornaram uma oportunidade para pequenos e médios empresários


05/10/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

Como soluções tecnológicas vêm aumentando a eficiência dos serviços e da infraestrutura de centros urbanos e se tornaram uma oportunidade para pequenos e médios empresários

Por Joice Rodrigues

Excesso de lixo, enchentes, moradias irregulares e recursos naturais cada vez mais escassos são alguns dos efeitos visíveis do crescimento populacional nas grandes cidades. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que 70% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050. Mas, aqui no Brasil, essa já é uma realidade para cerca de 85% dos habitantes. Atentos à necessidade de um futuro mais sustentável, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico, empreendedores de diversas partes do planeta têm criado negócios baseados no conceito das cidades inteligentes (ou smart cities, em inglês): onde soluções tecnológicas tornam os serviços e a infraestrutura mais eficientes, melhorando o cotidiano dos cidadãos.

“Ser uma smart city é ser resiliente, inclusiva e sustentável. Também é uma das formas de fazer a economia pulsar”, diz Stella Hiroki, pesquisadora de tecnologias e smart cities pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Engana-se, contudo, quem imagina que cidades inteligentes são futuristas como nos de filmes de ficção científica. “Nada de carros voadores. Uma cidade – isso inclui governos, empresas e sociedade – deve compreender seus problemas, dilemas e contratempos. De que adianta querer aplicar projetos hi-tech elaborados para realidades europeias e asiáticas onde não há nem saneamento básico?”, indaga Stella.

De acordo com a pesquisadora, não faltam oportunidades de negócios para pequenas e médias empresas que se dispuserem a pensar em alternativas. Afinal, elas têm uma visão privilegiada por estarem inseridas no dia a dia das cidades. “Gigantes como Intel, IBM e Cisco geralmente fornecem dashboards (painéis de controle) para análise de big data ou internet das coisas, o que pode auxiliar gestores públicos nas decisões estratégicas. Já as pequenas e médias são aquelas que podem criar, por exemplo, aplicativos ou plataformas que ajudem na interação entre a população e os serviços prestados pelo governo para torná-los mais eficazes”, afirma.

Nas cidades inteligentes, a tecnologia está a serviço do planejamento urbano, da otimização de verbas e da gestão eficiente de recursos naturais e energéticos. O equilíbrio entre esses pontos resulta no crescimento econômico sustentável e na melhora da qualidade de vida. Medellín, um dos locais mais violentos da Colômbia na década de 1990, se transformou em um exemplo de cidade inteligente. Uma das mudanças foi no tratamento da água. O rio que atravessa Medellín foi recuperado e se tornou um ponto de interação e lazer. Já em Songdo, na Coréia do Sul, não há desperdícios e nem cheiro de lixo, uma vez que toda a coleta é feita a vácuo.

ILHAS DE CALOR

Outro desafio é lidar com as ilhas de calor, fenômeno climático comum em locais com elevado grau de urbanização, onde a temperatura é mais quente do que nas regiões do entorno. “Uma saída é apostar na arborização, pois impacta na qualidade do ar, água, saúde e clima”, diz Paula Shinzato, pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. A Maptriz-Smart City, plataforma criada pela DRZ Geotecnologia e Consultoria, se destaca pela solução voltada à arborização e já desenvolveu produtos para mais de 140 cidades, envolvendo projetos de iluminação, trânsito, endemias, tributação e saneamento. “Baseado no georreferenciamento, nosso sistema permite o gerenciamento do banco de dados que traz todas as informações de cada árvore plantada, inclusive ocorrências que possam afetar a mobilidade urbana”, diz o CEO Agostinho Rezende.

Paula lembra que com mais vegetação dá para reduzir também o uso de ar-condicionado, um dos grandes causadores das ilhas de calor e do alto consumo de energia. “As tintas para cool pavements (pavimentos frescos) chamam cada vez mais atenção porque refletem a luz solar, ao invés de absorver a radiação, baixando a temperatura e permitindo que os condicionadores de ar refrigerem gastando muito menos energia”, diz. Em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde a sensação térmica nas ruas chega a 140°C, a prefeitura pintou vias com essa tinta. Ainda em testes, a iniciativa espera diminuir a temperatura em até 10ºC. Se der certo, será expandida para toda a cidade, o que geraria uma economia anual de US$ 100 milhões em energia.

Basta observar o aumento da circulação de veículos para notar que soluções para mobilidade também são urgentes. Só no estado de São Paulo, o número saltou de 7,6 milhões em 2000 para 17,4 milhões em 2017, segundo o Denatran, sendo que a emissão de gases do efeito estufa, que provocam o aquecimento global, cresceu proporcionalmente. Uma das formas de diminuir o tempo de trajeto dos carros e, em consequência, a poluição é com semáforos inteligentes. Foi assim que Ivaiporã, no Paraná, reduziu 49% do trânsito. O município optou por um equipamento chamado Agent Seebot, que analisa o fluxo em tempo real e decide por quanto tempo o sinal deve ficar aberto ou fechado. “A tecnologia despertou interesse de outras cidades brasileiras e de outros países, como Portugal, Argentina e Peru”, diz Aleksandro Montanha, sócio da empresa Seebot.

PREVENÇÃO DE ENCHENTES

Se o excesso de veículos é um problema, o descarte de lixo também aflige os centros urbanos, especialmente em temporadas de chuvas, pois produz alagamentos e polui rios e córregos. Para lidar com esse desafio, uma lei em vigor desde 2017 na cidade de São Paulo prevê a instalação de bueiros inteligentes que liberam a passagem de águas pluviais e retêm a sujeira em cestos internos. Eles são equipados com um sensor que calcula a quantidade de lixo e avisa a central de monitoramento da prefeitura que é hora de esvaziá-los. Essa tecnologia foi criada por Carlos Chiaradia, da Net Sensors, empresa sediada no Rio de Janeiro. “Comecei a pensar no modelo de negócio a partir da instituição da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010, quando vi que ainda não havia soluções para isso. Cheguei a uma resposta ambientalmente eficaz e sustentável economicamente”, lembra.

Para monitorar condições severas, a Climatempo criou um sistema que emite alertas sobre queda de raios, chuvas, vento forte, granizo e outras intempéries. “O SMAC é uma ferramenta para auxiliar empresas e governos na tomada de decisões rápidas, como na organização do trânsito ou, em situações mais graves, na evacuação de áreas”, diz Danielle Bressiani, pesquisadora e coordenadora de projetos de pesquisa. O próximo passo é um aplicativo de gestão colaborativa de riscos e desastres. “Em breve, lançaremos o Pé D’água. A princípio, ele emitirá avisos de perigos climáticos em tempo real para a Região Metropolitana de São Paulo, baseado em algoritmos de sensoriamento remoto e inteligência artificial”, adianta Danielle.

EXEMPLOS BRASILEIROS

Mostrar casos de sucesso é essencial para gerar engajamento. Há três anos, a Urban Systems, empresa de business intelligence, elenca as 100 cidades mais inteligentes e conectadas do Brasil no Ranking Connected Smart Cities. Encabeçando a lista geral de 2017, estão São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória. Ser inteligente, contudo, não é exclusividade das capitais. “Cada vez mais, as pequenas cidades estão se empenhando para se tornar mais resilientes, inteligentes e conectadas, mostrando que é possível entregar resultados com orçamento limitado”, diz Willian Rigon, diretor comercial e de marketing da Urban Systems.

Limeira, no interior paulista, é um exemplo. Segundo a prefeitura, a troca de experiências entre o governo e a sociedade tem sido essencial para encontrar soluções que melhorem a qualidade de vida da população. A cidade, que está em nona no Ranking Meio Ambiente, se destaca pelo Plano de Arborização Urbana, que resultou na ampliação da biodiversidade, em maior conforto térmico, na redução da poluição atmosférica e na melhora da umidade relativa do ar. Já Campinas, a oitava no ranking geral, sobressai como uma das mais inteligentes e conectadas do estado. “Estamos abraçando o conceito de living labs, onde soluções desenvolvidas pelas empresas podem ser experimentadas em situações reais para que possam ser validadas e adotadas pelo município”, diz André von Zuben, secretário de Desenvolvimento Econômico, Social e de Turismo.

Em Campinas, entre as medidas voltadas ao meio ambiente, e já implantadas, estão as plataformas web colaborativas “Censo Verde”, que permite a localização das entidades responsáveis pela coleta de produtos e resíduos nocivos; a “Arquimedes”, para a gestão, proteção e bem-estar dos animais; e a “Athena”, para controle de infrações. “Não é possível pensar em uma cidade inteligente se não houver a integração entre todos os atores: setores público e privado, sociedade e academia”, observa Willian Rigon. “Somente avançaremos na construção de smart cities à medida que o planejamento seja baseado em ciclos econômicos e não políticos”, finaliza.

O CONCEITO DE SMART CITY SE BASEIA EM SEIS PILARES:

  • Smart Environment – Proteção ambiental e gestão dos recursos naturais;
  • Smart Economy – Competitividade econômica;
  • Smart People – Qualificação das pessoas e das interações sociais;
  • Smart Governance – Bom funcionamento dos serviços e da administração pública;
  • Smart Mobility – Acessibilidade às redes de tecnologia da informação;
  • Smart Living – Soluções para cultura, saúde, segurança e habitação.

 

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p. 30


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