10 perguntas para Gil Giardelli, professor e estudioso sobre o futuro

"Na Era da Colaboração e da cocriação, ter conhecimento e não colocá-lo em prática é o mesmo que não saber"


26/11/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

10 perguntas para Gil Giardelli, professor e estudioso sobre o futuro

Por Joice Rodrigues

A sociedade já sente o impacto dos avanços tecnológicos. Buscar soluções para os problemas que desafiam o planeta, como a falta de empregos decorrente da automatização, é fundamental. Gil Giardelli, de 44 anos, um dos maiores estudiosos do Brasil sobre o futuro defende que a resposta está nos chamados makers – ou “fazedores”. Ele alerta que, na Era da Colaboração e da cocriação, ter conhecimento e não colocá-lo em prática é o mesmo que não saber. Entre as instituições que Giardelli leciona estão Insper, Fundação Dom Cabral e PUC-RS. Ele também foi professor convidado da Stanford University e do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Países como Estados Unidos, Israel e China são polos mundiais de inovação. O que falta para o Brasil estar entre os líderes?

GG: O Brasil se destaca por ter polos de inovação diversificados, como em Campinas (SP), Recife (PE) e Teresina (PI), mas, para que possamos avançar e conquistar o mercado global ainda nos falta um “projeto Entrevista Gil Giardelli, estudioso sobre o futuro nação” baseado na tríade políticas públicas, academia e iniciativa privada. É disso que um país precisa para crescer e se desenvolver rapidamente. A boa notícia é que, em determinados espaços, já vivenciamos o Movimento Maker, ou seja, um movimento de “fazedores” conscientes de que nenhum de nós é tão inteligente quanto todos nós juntos.

Estamos falando da economia da colaboração?

GG: Exato. Da economia da colaboração humana, da economia criativa, da sociedade em rede e de estudos sobre o futuro. Os entusiastas do Movimento Maker são aqueles que acreditam na cultura do “Faça Você Mesmo” e, assim, trabalham coletivamente para prototipar, construir, consertar, fabricar, distribuir e vender os mais variados tipos de projetos e tecnologias. Governos e sociedade que entendem que inovar coletivamente é a solução para o futuro são aqueles que apostam e investem nas chamadas “Fábricas de Fazedores”.

Pode citar um país que seja exemplo desse movimento?

GG: Um dos mais emblemáticos é a China. Com o “boom” de hackerspaces, de aceleradoras de softwares e de startups, o país se converteu em um celeiro para a nova geração de criativos estudiosos e que gostam de correr riscos, atraindo investidores do mundo todo. Os Estados Unidos, claro, não ficaram para trás. Em 2014, lançaram o manifesto Uma Nação de Fazedores, chamando a atenção para a Era dos Makers, que será a grande responsável por pensar e criar novos empregos e indústrias.

Como educador, acredita que nossas crianças precisam de uma educação voltada à inovação?

GG: Sem dúvidas. Ainda estamos vivendo no Brasil uma educação voltada para a 1ª Revolução Industrial, aquela educação que formou pessoas para trabalhar em empresas, para produzir operários. Hoje precisamos entender o impacto da tecnologia em nossas vidas e, mais do que isso, aprender a desenvolver o nosso lado humanístico. Na 4ª Revolução Industrial, o que conta é o pensamento crítico, e não o pensamento repetitivo. Se crianças são criativas e inovadoras por natureza, temos que aprender a estimular e potencializar o que há de melhor nelas; e não ensiná-las a pensar todas da mesma forma.

Conhece alguma iniciativa neste sentido?

GG: Há iniciativas fantásticas, como a de uma escola pública de Ubatuba, no litoral paulista. Ao perceber o desinteresse dos alunos, um professor desenvolveu uma aula de criadores e, juntos, criaram um nanossatélite. Em poucos meses, já com a sala lotada de estudantes curiosos e engajados, ele mandou um e-mail para a Nasa perguntando se poderiam enviar o satélite para orbitar a Terra. Resultado? Foram convidados a receber um prêmio em Tóquio e lançar o nanossatélite, que enviou do espaço a mensagem: “Parabéns, vocês não são a primeira escola do Brasil, mas a primeira do mundo a fazer isso”. Nosso grande desafio, no entanto, é criar um projeto de nação focado na inovação inclusiva, em que todos conversem entre si, criem soluções disruptivas, troquem experiências e evoluam.

Caminharemos assim para o desenvolvimento das chamadas Smart Cities?

GG: Em partes, sim. Mas, muito antes de cidades conectadas ou inteligentes, temos que pensar no que estamos vivendo, que é uma revolução na forma de encarar os seres humanos na Era Digital. É preciso ter inteligência social. Compreender, por exemplo, que São Paulo é uma cidade bacana e inovadora porque convivemos com milhões de pessoas diferentes. Apenas quando passarmos a colaborar, cocriar e compartilhar pensamentos é que desenvolveremos cidades mais inteligentes, independente da camada tecnológica. Durante muito tempo a tecnologia nos afastou e agora o grande passo é usá-la para nos reaproximarmos e juntos buscarmos soluções para melhorar nosso convívio em sociedade.

É seguindo este raciocínio que conseguiremos lidar com o desemprego decorrente da tecnologia?

GG: As únicas atividades que não serão automatizadas são o pensamento e a sensibilidade humana. A criatividade, as soluções de problemas complexos, o pensamento crítico, a empatia, o bom senso e a efetividade cognitiva – características inerentes aos seres humanos – é que pautarão as futuras profissões.

Falando assim parece uma realidade tão distante…

GG: Não é. De cada vaga fechada atualmente, três estão se abrindo. Mas são trabalhos que exigem muito do cérebro e, por consequência, teremos que treiná-lo cada vez mais. Por exemplo: o agrônomo, que antes basicamente tinha que entender técnicas de cultivo e de criação no campo, hoje dificilmente encontra emprego se não estiver preparado para o que chamamos de Fazenda 4.0. Precisa saber como conectar máquinas, big data e internet das coisas.

Como as empresas podem se preparar para uma gestão cada vez mais inovadora?

GG: Devem praticar a Gestão do Presente, a Gestão do Futuro e a Gestão da Inovação. Principalmente nas pequenas empresas que não têm esse costume, é fundamental que os gestores separem algumas horas ou um dia da semana para pensar e executar melhorias – como ouvir sugestões dos colaboradores (presente); traçar metas e projeções para as semanas seguintes, meses ou anos (futuro); e promover mudanças que resultem em maior eficiência ou qualidade de seus produtos, processos ou serviços (inovação).

Há ferramentas acessíveis para os pequenos negócios acompanharem essa transformação?

GG: Sim, e recomendo que comecem pelas ferramentas gratuitas. Nessa Era de Dados, vejo empresas gastando dinheiro com hardwares e softwares de última geração, mas como não sabem lidar com a gama de informação gerada, ficam perdidas. A digitalização do negócio deve ocorrer de forma gradual.

 

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p.6


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