11 perguntas para Paulo Borges, idealizador da São Paulo Fashion Week

"Quando um pequeno empreendedor escolhe investir em economia criativa, ele opta por trazer conhecimento, criação e valores intangíveis para o centro de seu negócio"


03/06/2015 - Revista Desenvolve SP - edição 3

11 perguntas para Paulo Borges, idealizador da São Paulo Fashion Week

Criatividade, conhecimento e inovação são as ferramentas que Paulo Borges usou para transformar a moda e colocar o Brasil no mapa da indústria criativa

Um dos requisitos para atuar com a economia criativa é ser inovador. E nisso o empresário Paulo Borges é expert. Idealizador da São Paulo Fashion Week e da Fashion Rio, entre muitas outras iniciativas, Paulo Borges é um entusiasta da indústria criativa do Brasil.

CEO do grupo Luminosidade e presidente do Instituto Nacional de Moda e Design (In-Mod), Paulo se tornou um ícone do mundo da Economia Criativa e especialmente da moda, mesmo sem ser estilista nem dono de confecção. Paulo Borges é acima de tudo um empreendedor.

Você acredita que a economia criativa pode ser representativa na economia brasileira?

Paulo Borges: Vejo os negócios criativos como um caminho de desenvolvimento político, social e econômico para o País. Acredito e defendo a ideia de que o Brasil precisa, cada vez mais, de uma política clara de fomento à economia criativa. Os negócios criativos se sustentam nos pilares da inovação, do conhecimento, da criatividade, da geração de valor; são negócios de cauda longa que começam no conhecimento e na criatividade, movimentam processos, ferramentas e tecnologia e, a partir deles, toda uma indústria se constrói. Esse potencial é ainda imensurável e foi pouco explorado.

Qual o conceito de economia criativa para você? É só moda?

Economia Criativa é o nome que damos às várias áreas da economia em que os negócios são movimentados a partir do conhecimento e da criatividade. A partir daí já vemos que a moda faz parte da economia criativa, mas esta compreende uma gama de outras áreas, como o design (de objeto, de produto, gráfico etc.), o audiovisual (com o cinema, a teledramaturgia, os vídeo mappings e manifestações artísticas, a criação de conteúdo na web etc.), a música, a fotografia, a arquitetura e, por que não, a gastronomia. Todas essas áreas partem da criação, provocam o desenvolvimento de tecnologias, criam produtos que despertam o desejo. É nesse contexto em que se vê inovação.

A economia brasileira passa por um momento difícil. Como a economia criativa pode contribuir para mudar esse cenário?

Os negócios criativos sempre estão associados a produtos de mais valor que somam o intangível e extrapolam a simples funcionalidade nas suas cadeias de atuação, já que, por sua natureza que parte de uma criação, carregam em si características de inovação e diferenciação que os posicionam fora do ambiente de competição de commodities de mercado. Uma cadeira assinada por um designer não é mais uma simples cadeira, objeto, produzida em série por uma indústria; uma faixa musical, resultado de uma composição original, não é um conjunto de sons apenas que serve como um simples sinal sonoro; uma peça de roupa, criada por um designer, não é apenas um abrigo para cobrir o corpo, ou uma identificação como um uniforme. Todo produto da economia criativa transcende os atributos do objeto, coisa que é e, por isso, carrega em si mais valor.

Falta incentivo para a economia criativa no País? Como é lá fora e o que poderia ser feito para impulsionar o setor aqui?

A complexidade da política tributária e da política trabalhista são apenas dois exemplos dos desafios que a economia criativa (assim como todo segmento econômico) enfrenta para seu desenvolvimento no Brasil. Desburocratização e incentivo, reconhecimento da geração de valor em cadeias de cauda longa são fatores que podem auxiliar o desenvolvimento desse tipo de negócio no Brasil.

Vemos bons exemplos de como outros países desenvolvem e investem na economia criativa, a exemplo do audiovisual nos Estados Unidos, com Hollywood e toda teledramaturgia que se constrói impulsionada por esse polo; a Itália, que adota o design como assinatura de uma identidade nacional, tanto na moda como nos objetos. Mas as formas de construção e incentivo são específicas em cada país. O Brasil deve, sim, se inspirar nas conquistas que vemos pelo mundo, mas precisamos encontrar nosso próprio modelo.

Você acredita que os setores relacionados à economia criativa no Brasil enfrentam dificuldades para competir mundialmente?

Posso falar com propriedade sobre a moda brasileira, que sofre com a política trabalhista, tributária, logística e burocracia. Porque produzir no Brasil é tão caro e complexo que o produto brasileiro, apesar de despertar o desejo de consumidores no mundo todo, chega muito caro ao exterior e sem o necessário investimento em marketing, posicionamento, branding, o que se torna um entrave para sua comercialização global. A criação brasileira é desejada, a moda brasileira é respeitada, mas o produto de moda brasileiro ainda está associado a altos preços.

Há três anos você criou uma rede social para pessoas criativas. Como se deu isso?

O Movimento Hotspot é uma plataforma que viabiliza conexão e a revelação de criativos de talento. Trata-se de um processo de 18 meses durante o qual provocamos a conexão de criativos em 11 áreas, expomos trabalhos selecionados por curadores de referência em cada uma dessas áreas, escolhemos talentos de destaque para uma vivência de co-criação e premiamos os talentos de maior destaque em cada uma dessas categorias. Na primeira edição realizada entregamos mais de R$ 500 mil em prêmios e o impacto transcende esses valores.

Outro projeto inovador, o Salão Design São Paulo, teve muito impacto. O que os empreendedores podem aprender com essa iniciativa?

O Salão Design São Paulo teve, sim, muito sucesso, tanto que vemos um número cada vez maior de empresas, marcas investindo em semanas, salões, exposições e eventos em torno do design. O próprio São Paulo Fashion Week sempre abriu espaço para a discussão, fomento, reflexão em torno do design, Acredito que o design inspira, inova, volta nossos olhos para novos materiais, processos, aplicações, formas de entender e ver o mundo. Design é conhecimento e desenvolvimento.

Como incentivar o pequeno empreendedor a investir na economia criativa?

A moda é uma cadeia de cauda longa, a atividade no Brasil movimenta mais de 300 mil empresas, a maioria composta pelos pequenos negócios. Quando um pequeno empreendedor escolhe investir em economia criativa, ele opta por trazer conhecimento, criação e valores intangíveis para o centro de seu negócio, coloca-se num contexto de inovação e aposta na criação de produtos com mais valor agregado, o que colabora para a saúde e potencial de desenvolvimento de pequenas estruturas. O pequeno empreendedor passa a produzir mais qualidade e menos quantidade, investe em produtos que extrapolam sua básica funcionalidade e ganham características que geram desejo. Atuar dessa forma exige desenvolvimento de know-how, processos, branding, design, tecnologia, bons atributos para sobrevivência num ambiente competitivo.

Acha que falta criatividade às empresas brasileiras? Pode ser uma saída para as empresas crescerem?

Criatividade e conhecimento são recursos inesgotáveis, isso não falta quanto mais se pratica, mais se cria e movimenta. Além disso, todo produto, serviço, processo, qualquer oferta que se leve ao mercado, pode ser apresentado com valores tangíveis somados a uma dimensão intangível, o ponto em que o produto extrapola sua funcionalidade básica e ganha novos atributos que geram São Paulo Fashion Week desejo. E, sim, acredito em negócios criativos como um motor de desenvolvimento. Tanto que, em momentos de crise, em que os sistemas são colocados em cheque e é preciso gerar mudanças para a sobrevivência dos negócios, a criatividade sempre será uma fundamental aliada.

Uma empresa tradicional pode atuar na economia criativa?

Atuar em economia criativa não é apenas usar a criatividade em suas práticas de negócio, isso sempre existe em algum aspecto, seja na comunicação, no marketing, no branding, na relação com publico interno ou externo. Ser um empreendedor criativo é escolher empreender em uma área criativa, trazer a dimensão e o valor do intangível para o centro do negócio e do que ele entrega como produto ou resultado. Mas claro que é possível migrar de uma área tradicional para a criativa, uma empresa de programação e TI ou design gráfico pode mudar sua equipe, foco e natureza de negócios e passar a trabalhar com design de games, ou desenvolver programas de e-learning, ou aplicativos e soluções móbile. Uma fábrica ou malharia, quando associada a um designer, equipe de criação, pode se tornar uma marca de moda. Quem atua na captação, edição de áudio e vídeo, se ajustar seu negócio pode investir e se tornar uma produtora no audiovisual, e por aí vai.

Quais dicas você pode dar para que empresas de qualquer segmento ousem e utilizem o conceito de economia criativa para crescer?

É o que digo a qualquer empreendedor: não trabalhe para realizar uma tarefa; busque sua alma, atue de acordo com uma crença, encontre e defenda sua causa. Isso é o que determina o real sucesso e a continuidade de um negócio.

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 3. Págs. 16 a 18


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