Educação para empreender

Nessa entrevista Martha Gabriel aponta quea formação executiva é fundamental para formar líderes empresariais capacitados para enfrentar crises econômicas


06/06/2016 - Revista Desenvolve SP - edição 4

Educação para empreender

Ao analisar os fatores que contribuem para o empreendedorismo, o Brasil se destaca quando o assunto é criatividade e aceitação de risco, mas perde em outros essenciais, como na qualidade da educação empreendedora e executiva, consideradas as bases da inovação sistêmica.

Nesta entrevista exclusiva, Martha Gabriel, uma das principais especialistas em inovação, educação e marketing, e apresentadora da websérie “Caminhos da Inovação”, da Desenvolve SP, que conta histórias de empreendedores visionários que impactaram positivamente não só seus negócios mas a sociedade como um todo, aponta que, assim como é visto nos polos tecnológicos mundiais, como no Vale do Silício e em Israel, a formação executiva é fundamental para formar líderes empresariais capacitados para enfrentar crises econômicas.

Em sua visão, o que é empreendedorismo e como se formam novos empreendedores? Martha Gabriel – Para mim, empreender é o movimento gerado pela insatisfação com o status quo, que nos leva a buscar novos caminhos e soluções – é a força motriz de evolução da humanidade. Tudo o que o homem construiu no mundo é resultado de um ato inicial de empreendedorismo – fogo, carro, avião, computador etc. Sem empreender, o homem estaria ainda vivendo em cavernas. Assim, creio que empreender é toda ação na tentativa de mudança para progredir, por isso, o empreendedorismo é a essência da inovação, que busca criar valor no mundo. É a alavanca que transforma o potencial latente da criatividade em inovação efetiva aplicada.

Para formar novos empreendedores é preciso educar para a criatividade, iniciativa, motivação, aceitação de riscos, gestão de erros e fracassos e ter resiliência. Os empreendedores natos normalmente já têm essas características, mas elas podem ser ensinadas e melhoradas por meio da educação.

Qual a diferença entre educação empreendedora e educação executiva? MG – A educação executiva educa para fazer a gestão de algo, que pode ser ou não empreendedor. A educação empreendedora, por sua vez, educa para inovar, arriscar, ir além. Nem sempre um bom empreendedor é bom executivo, e vice-versa. Normalmente, o melhor resultado nas empresas vem da combinação de empreendedores e executivos. O empreendedor tende a ser um “iniciador”, e o executivo tende a ser um “acabador”, por isso, as duas funções são igualmente importantes em qualquer negócio.

A educação empreendedora ou executiva pode contribuir para vencermos crises como a que estamos vivenciando agora? De que forma? MG – Certamente, e de modo complementar! Em momentos de crise, existem duas formas de competir: por preço ou por valor. A competição por preço normalmente é a mais comum, mas é também a mais perigosa, pois favorece apenas o líder de mercado. Nesse caso, a educação executiva é essencial para a análise de recursos, necessidades e custos na busca da otimização de todos os processos existentes para a redução de preços. Já a competição por valor pode ser interessante para qualquer empresa, pois o preço consegue ser mantido, ou até mesmo aumentado, por meio de acrescentar algo novo ao que já se faz – algo que seja relevante e valorizado pelo público-alvo, cliente ou consumidor. Para tanto, é preciso inovar, que é justamente o processo de fazer algo novo para criar valor. Nesse caso, a educação empreendedora contribui para encontrar soluções de inovação, para acrescentar valor, enquanto a educação executiva contribui para a gestão dos processos para que a inovação ocorra na empresa.

Como está a educação empreendedora brasileira em relação aos países desenvolvidos? Quais desafios ainda existem pela frente? MG – Existem diversos fatores que contribuem para o empreendedorismo, entre eles estão a criatividade e a aceitação do risco. Nesses quesitos, o Brasil se destaca, pois essas características são marcantes na cultura brasileira. No entanto, é importante ressaltar que toda inovação é resultado do empreendedorismo, mas nem todo empreendedorismo resulta em inovação. Para o empreendedorismo virar inovação, gerando resultados positivos (tanto para a empresa, quanto para o mercado), existem outros fatores essenciais, de que, infelizmente, o Brasil carece, como qualidade na educação, metodologia e confiança. A educação qualificada é a pedra angular sobre a qual se edifica a inovação sistêmica – quanto mais pessoas qualificadas juntas, maior a probabilidade de inovar. É isso que faz com o que o Vale do Silício e Israel tenham uma alta taxa de inovação! A metodologia é essencial para que qualquer ideia seja implementada de forma otimizada, maximizando resultados. A confiança é a base para que se consiga ter um time que leve a ideia para frente, junto – sem confiança, as pessoas tendem a querer fazer tudo sozinhas, e assim os resultados ficam limitados e/ou prejudicados. Assim, acredito que os maiores desafios que temos pela frente no Brasil são: 1) a melhoria da educação, aumentando sua qualidade e foco no empreendedorismo e na inovação, e; 2) uma transformação na cultura, valorizando-se o método e elevando-se o grau de confiança.

Qual a relação entre educação empreendedora e inovação? MG – Enquanto a educação empreendedora fomenta o empreendedorismo (criatividade, iniciativa, motivação, risco), a inovação, por sua vez, é o resultado final gerado por um processo empreendedor. No entanto, a inovação depende de mais fatores para ocorrer, como, por exemplo: metodologia, execução e gestão. Assim, podemos dizer que o empreendedorismo é o início da inovação. O risco é inerente ao processo de empreender, e onde existe risco, existem também erros e fracassos. Portanto, empreender tem sempre duas faces: a insatisfação com o status-quo (que gera a iniciativa) e o risco do novo (que gera insegurança). Dessa forma, o empreendedorismo é certamente um antídoto para a acomodação, mas não necessariamente uma receita garantida para o sucesso e inovação. Por isso, normalmente o empreendedorismo ocorre quando a motivação pela mudança é maior do que o medo de seus riscos. A inovação se dá quando o empreendedorismo é bem-sucedido.

Um bom executivo, aos olhos do mercado e da academia, precisa ter quais habilidades e características? MG – As habilidades técnicas (hard skills) são a base para a atuação dos executivos em suas áreas específicas (gestão, marketing, tecnologia, informação, finanças etc.), que requerem formações básicas distintas. No entanto, quanto mais alto for o cargo executivo, maior será a importância das soft skills em seu desempenho: as habilidades relacionadas a sua personalidade e características pessoais, tais como: negociação, liderança, gestão de pessoas e línguas. Quando desenvolvidas adequadamente, essas capacidades ampliam bastante o potencial do executivo e sua contribuição para o sucesso da organização.

Fonte: Revista DesenvolveSP, edição 4, p. 6


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