5 perguntas para José Goldemberg, físico e especialista em sustentabilidade

"Uma parte fundamental em qualquer sistema de gestão ambiental é o engajamento dos colaboradores"


27/07/2015 - Revista Desenvolve SP - edição 3

5 perguntas para José Goldemberg, físico e especialista em sustentabilidade

O físico José Goldemberg é um dos principais cientistas brasileiros especializados em produção de energia, gestão de resíduos e sustentabilidade. Foi reitor da Universidade de São Paulo, secretário de Meio Ambiente do governo paulista e ministro da Educação. Em 2008, recebeu o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do Meio Ambiente. É presidente do Conselho de Sustentabilidade da Fecomercio-SP.

As empresas têm se preocupado com a questão dos resíduos?

As empresas têm cada vez mais se preocupado e, na maioria dos casos, medidas já foram tomadas para a destinação adequada, ao menos no Estado de São Paulo, onde a Cetesb realiza fiscalização eficiente. Até por questões econômicas, os resíduos provenientes da produção estão sendo reaproveitados nos próprios processos ou comercializados para outras indústrias. O que não tem como ser aproveitado, os rejeitos, é encaminhado para aterros industriais.

O que falta então para o sistema de reciclagem decolar?

O que precisa ser melhorado é a gestão dos resíduos pós-consumo, isto é, os produtos fabricados nas empresas passam pelos distribuidores, pelo comércio e chegam ao consumidor. É com o consumidor que ficam os resíduos pós-consumo, e este é que precisa fazer o descarte. Pela PNRS, as indústrias são as responsáveis pelos resíduos gerados por seus produtos após o uso pelos consumidores (até mesmo das embalagens dos produtos). Nessa cadeia, todos consumidores, comerciantes, distribuidores, importadores e produtores têm sua responsabilidade. É a responsabilidade compartilhada, isto é, cada ator tem um papel a desempenhar.

As empresas estão perdendo dinheiro por não enxergar que os resíduos sólidos também são fonte de lucro?

Sim, creio que estão. Por exemplo, no caso do acordo entre o governo de São Paulo e as operadoras de telefonia celular, todas as lojas têm urnas para que os consumidores depositem os celulares e acessórios. Tudo é coletado e vai para Centro de Distribuição em São José dos Campos, onde são separadas as baterias que são recicladas aqui no Brasil. O resto vai para Chicago. Falta infraestrutura tecnológica para reciclagem desse tipo de resíduo no Brasil. Quando o Brasil envia os celulares para Chicago, quantos metais preciosos estão sendo perdidos?!

As empresas estão preparadas para se adaptar à logística reversa?

Creio que não seja uma questão de “adaptação”. É uma questão financeira. Alguns produtos não têm valor de mercado para reciclagem, e quando as indústrias tiverem de arcar com as despesas da logística reversa, que inclui disponibilizar coletores, retirar os resíduos, segregar, reciclar e reaproveitar, dispor os rejeitos em aterros apropriados, num país de dimensões continentais, certamente os custos terão impacto no preço final para o consumidor. Já há países em que o consumidor opta na hora da compra de um móvel, por exemplo, se quer que o entregador faça a retirada do equipamento antigo, paga uma taxa para isso na hora da compra.

Como trabalhar a questão da ética ambiental e da responsabilidade compartilhada com os colaboradores?

A maioria das empresas já conta com sistemas de gestão ambiental estruturados, mesmo que não certificados por normas internacionais. E uma parte fundamental em qualquer sistema de gestão ambiental é o engajamento dos colaboradores. As empresas têm investido em educação ambiental por meio de treinamentos de sensibilização, conscientização e formação. Há ainda a participação dos colaboradores em práticas socioambientais com as comunidades em que estão inseridas. Pode-se verificar que grande parte das empresas publica anualmente seus “Relatórios de Sustentabilidade”, nos quais exibem com orgulho seus indicadores ambientais, sociais e econômicos, as metas traçadas e os resultados atingidos.

Fonte: Revista Desenvolve SP – 3ª edição – Pág. 28


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