Ao alcance de um clique

Já imaginou poder desfrutar de energia cuja fonte não desagrada o meio ambiente e ainda acompanhar em tempo real o consumo na tela do seu celular? Isso já é possível porque a Sun Mobi, primeira enertech brasileira, transformou uma ideia inovadora em um novo modelo de negócio


08/10/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

Ao alcance de um clique

Startup paulista promete transformar o modo de consumo de energia unindo geração de usina solar com o poder de alcance da internet

Por Anderson Sousa

Já imaginou poder desfrutar de energia cuja fonte não desagrada o meio ambiente e ainda acompanhar em tempo real o consumo na tela do seu celular? Isso já é possível porque a Sun Mobi, fundada em 2016, transformou uma ideia inovadora em um novo modelo de negócio. Inspirados em comunidades americanas, os sócios Guilherme Susteras e Alexandre Bueno criaram uma usina solar em Araçoiaba da Serra, no interior de São Paulo, utilizando a infraestrutura das redes de distribuição de eletricidade já existentes para fornecer energia para residências e empresas de 26 cidades do entorno e da Baixada Santista. Com uma tecnologia descomplicada, seus clientes não precisam de painéis fotovoltaicos no telhado. A Sun Mobi instala apenas um sensor que permite rastrear e controlar o uso de energia por meio de um aplicativo.

A Sun Mobi é a primeira enertech brasileira, um conceito que define startups que trazem inovações tecnológicas na maneira de gerar, consumir e gerenciar energia. Considerando sua equipe enxuta, de apenas quatro pessoas, e o faturamento anual de R$ 240 mil, os efeitos dessa iniciativa são significativos. Estima-se que a usina da empresa, batizada de Mauricio Valter Susteras em homenagem ao pai de Guilherme, evitará que sejam despejadas 216 toneladas de CO2 na atmosfera nos próximos 25 anos. O número equivale ao que um automóvel a gasolina produziria se percorresse 853 mil quilômetros ou desse cerca de 20 voltas ao redor da Terra.

O potencial de expansão da Sun Mobi – e de empreendimentos semelhantes – é enorme. A busca por alternativas limpas não para de crescer, e a irradiação solar no Brasil é uma das melhores do mundo. A projeção é que o montante a ser movimentado pelo mercado de energia solar no país chegue a R$ 125 bilhões até 2030 – apesar de a capacidade instalada nacional ser de apenas 1 gigawatt atualmente, enquanto nos Estados Unidos e na Alemanha é de 41 (GW); e na China alcança 130 (GW). De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a energia solar foi a fonte renovável que mais recebeu investimentos no mundo em 2017: US$ 160,8 bilhões.

BUSCA POR APOIO

Para transformar o projeto da Sun Mobi em realidade, primeiro foi necessário preparar um plano de negócios em busca de investidores. Não foi uma tarefa fácil. Seria preciso encontrar pessoas que conhecessem os riscos do setor e, ao mesmo tempo, estivessem abertas à novidade. “Não existe um empreendedor que não tenha tido momentos de intensa dúvida em sua trajetória. Foi frustrante ouvir cada ‘não’, mas a crença na proposta da Sun Mobi nos manteve motivados para entregar um produto bacana e inovador”, lembra Bueno. “Há algumas iniciativas dispersas no país por meio de cooperativas solares, mas efetivamente nenhuma segue o nosso modelo de negócio”, acrescenta Susteras.

Para atender aos pontos estabelecidos nos planos da empresa, uma das medidas foi a contratação de um financiamento de longo prazo. No período em que estiveram dentro do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) – incubadora de empresas do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), associado à Universidade de São Paulo (USP) –, Bueno e Susteras participaram de sessões sobre desenvolvimento de negócios e fontes de apoio. Foi assim que conheceram as opções de crédito da Desenvolve SP e escolheram a Linha Economia Verde, que financia projetos sustentáveis que promovem a redução de emissões de gases de efeito estufa e minimizam o impacto ambiental. “Por mais inovador que seja um negócio, ele não se sustenta se não houver clareza de quais serão seus passos. Um planejamento realista é fundamental”, destacam os sócios.

MODELO SUSTENTÁVEL

Susteras é engenheiro eletricista. Bueno, historiador com MBA em gestão de energia. Eles se conheceram quando trabalhavam na americana Duke Energy, que adquiriu a CESP Paranapanema (Companhia Energética de São Paulo) em 1999. Com a experiência acumulada lá, chegaram à conclusão de que as empresas desse segmento, em geral, mantêm uma estrutura tradicional, com incentivos para garantir sua viabilidade econômico-financeira. Mas eles queriam fazer diferente. Por isso, pensaram em um modelo sustentável sob todos os aspectos: social, ambiental e econômico. O projeto foi tão bem-sucedido que, em menos de seis meses, a Sun Mobi comercializou todo o potencial de energia gerada.

E as expectativas para o futuro também são positivas. Além da meta de chegar a mil clientes em dois anos e a 10 mil nos próximos seis, a empresa está prestes a concluir a segunda fase da construção da usina em Araçoiaba da Serra. Com isso, sua capacidade de produção deve aumentar 500%. Bueno e Susteras não descansam. Mesmo com as dificuldades de empreender em um segmento tão pouco explorado no Brasil, os dois são categóricos ao dizer que não trocariam a vida que levam hoje por altos cargos em grandes empresas do setor.

ALTERNATIVAS LIMPAS

O Brasil tem know-how e matéria-prima para se destacar também na geração de energia com outras fontes renováveis:

Biodiesel: feito a partir de óleos vegetais ou gordura animal, substitui o tradicional óleo diesel. Mais de 4,29 bilhões de litros desse combustível foram produzidos pelas usinas brasileiras em 2017, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Etanol: já conhecido pelo uso em automóveis, essa fonte também é uma alternativa para a geração de energia elétrica com menos poluentes. Além do uso da cana-de-açúcar, o setor pretende investir sete vezes mais na produção do álcool de milho nos próximos três anos.

Biomassa: é produzida com matéria orgânica não fóssil, como bagaço de cana-de-açúcar, casca de arroz e óleos. Já é a terceira fonte de energia mais utilizada no Brasil, representando pouco mais de 9% da eletricidade consumida.

Eólica: de acordo com estudo do Global Wind Energy Council (GWEC), o Brasil ocupa desde 2017 o 8º lugar entre os países que mais geram energia a partir da força dos ventos. Essa fonte representa 8,3% da produção nacional.

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p.22


Receba notícias e informações sobre o Canal do Empresário