Inovação: Disruptiva ou Não?


19/12/2018 - Martha Gabriel

Durante quase toda a história da humanidade o sal comandou a economia. Antes da invenção da eletricidade e da refrigeração, o melhor modo de se preservar carnes e outros alimentos era com sal. Além disso, ele era também um dos elementos principais para curar o couro, matéria prima essencial para diversas manufaturas pré-industriais. A importância do sal era tanta, que a palavra salário refere-se ao pagamento recebido em sal, bem como o termo soldado. O sal, portanto, era ingrediente base de tecnologias vitais para a humanidade, configurando-se, assim, em um dos negócios mais rentáveis na face da Terra. No entanto, a partir do início do século XX, novas tecnologias fazem de forma melhor e mais barata aquilo que o sal fazia, reduzindo-o ao seu papel atual, conhecido por muitos apenas como um condimento de cozinha. O mesmo aconteceu com o óleo de baleia, que era usado para iluminação de ruas antes da lâmpada elétrica, e tantas outras tecnologias que alavancavam negócios poderosíssimos, mas que, em função da transformação do mercado, perderam totalmente o seu valor[1].

Empresas e negócios existem e prosperam enquanto solucionam problemas no mundo. A partir do momento em que o mundo muda e surgem novos modos de se resolver os problemas, os negócios precisam mudar também para sobreviver e continuar relevantes. A principal causa de mudanças na história da humanidade é a tecnologia, pois ela tem o poder de recriar a nossa realidade, afetando todas as dimensões da nossa existência, desde os modos de produção até a nossa cognição.

Atualmente, a disseminação das tecnologias digitais no mundo tem propiciado o surgimento de novos modelos de negócios que estão transformando profundamente o modo como fazemos as coisas. Exemplos disso são Uber, Airbnb, Google, Facebook, Waze e tantas outras empresas que mudam a nossa relação com tudo o que nos cerca. O modo hoje como aprendemos, encontramos informações, viajamos, nos relacionamos ou comunicamos é totalmente diferente do que era há apenas alguns anos, e isso traz consequências que abalam estruturalmente não apenas a sociedade, mas também, o mercado.

Disrupção

Nesse contexto, modelos de negócios, que inicialmente pareciam insignificantes, ganham rapidamente o mercado, ameaçando grandes organizações, que eram anteriormente dominantes desses mercados. Essa é a relação do Uber, por exemplo, com as empresas de transporte. Nesse cenário, organizações fortes e dominantes veem os seus modelos de negócios perderem a relevância, muitas vezes tornando-se totalmente obsoletos, requerendo reestruturação para não desaparecerem. Isso é o que chamamos de disrupção – a ocorrência de uma descontinuidade (ruptura) no funcionamento do mercado, que rompe um padrão dominante, estabelecendo outro.

Apesar de ser um termo relativamente novo, cunhado no final do século passado pelo professor de Harvard, Clayton Christensen, “disrupção” descreve um fenômeno antigo da história da humanidade. Desde a pré-história o ser humano tem incorporado novas tecnologias em sua vida, e muitas vezes essas tecnologias tiveram um impacto de ruptura. Em sentido amplo, o fogo, a pedra, o bronze, a escrita, etc., desencadearam processos disruptivos, que estabeleceram novas eras ao longo da história. No entanto, se na pré-história eram necessários milhares de anos para acontecer uma nova disrupção, hoje, vemos surgir todos os dias uma inovação que carrega em si um potencial disruptivo.

Disrupção & Poder

É importante notar que toda vez que uma disrupção acontece na humanidade, muda-se o paradigma de poder estabelecido, e consequentemente, mudam também os polos de poder a ele associado. Em outras palavras, a disrupção muda quem manda — por isso todos querem ser agentes de disrupção. Se você é disruptivo, você ganha poder. Se você sofre disrupção, você perde poder. Por isso, o lema da inovação, em inglês, é: “Be disruptive, not disrupted” (seja disruptivo, não disruptado).

Por outro lado, se a questão da disrupção sempre foi importante na história da humanidade, a aceleração da mudança no mundo  torna o tema em ainda mais urgente.

Inovação Disruptiva

Nesse contexto, logicamente, todos queremos ser disruptivos, não “disruptados”. No entanto, não conseguimos planejar para criar disrupção – conseguimos apenas planejar para gerar inovação. A inovação que planejamos e colocamos no mundo será disruptiva ou não, dependendo de quanto ela afeta todo o ecossistema de mercado no qual atua.

Quando inovamos, criamos valor. No entanto, nunca conseguimos saber de antemão se o impacto desse valor no mundo será disruptivo ou não, pois somente após implementado poderemos ver as suas reais ramificações e interações com os produtos existentes. Quando a inovação gera um valor que melhora o que já existe, sem causar rupturas, chamamos essa inovação de incremental. O importante é inovar sempre, com foco em agregar valor para os seus públicos. Eventualmente, a sua inovação será disruptiva. Dessa forma, inovar é tanto o caminho para sermos disruptivos, quanto para conseguir combater a disrupção de mercado causada por outros.

Inovar é preciso, disrupção não é preciso.

[1] Filmes/séries que mostram de forma excelente algumas dessas transformações são: Downton Abbey (série), Frontier (série,Netflix), No Coração do Mar (filme, 2015).


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