Complexidade: Vencendo os Fatores Inibidores para a Inovação


07/11/2018 - Martha Gabriel

Vivemos tempos complexos. Desde o início dos tempos, cada vez que a humanidade experimenta um aumento de conexão entre as pessoas, cresce a complexidade no mundo. Vejamos. Quando duas pessoas estão de mãos dadas (portanto, conectadas), aquilo que uma faz afeta a outra – elas passam a ser interdependentes. Se aumentarmos o número de pessoas se dando as mãos, o impacto resultante da ação de qualquer indivíduo é maior, pois tende a afetar mais gente no grupo. Assim, quanto mais conexões existem em um ambiente, maior será a interpendência entre todos e mais difícil se torna compreender as relações causa/efeito entre as partes. Esse fenômeno é o que chamamos de complexidade.

A forma tradicional de se planejar, separar e resolver linearmente cada parte do problema, como nos projetos do século passado, não funciona mais para solucionar os ambientes complexos do século XXI. Vivemos hoje uma aceleração das transformações no mundo, estruturada pelas tecnologias digitais, que contribuem para o surgimento de novas áreas do conhecimento e aumento da conexão entre pessoas e/ou coisas, elevando ainda mais o nível de complexidade. Temos hoje muito mais disciplinas, tecnologias e pessoas conectadas, e nesse caso, é preciso compreender cada parte do sistema e navegar nas suas interdependências para conseguir obter resultados.

Inovação, por sua natureza, se constitui de diversas disciplinas interdependentes: criatividade, método e integração, caracterizando-se, assim, em um sistema complexo. Não se consegue inovar sem se orquestrá-las e compreendê-las.

Para vencer o jogo da inovação, além de atuar para desenvolver as mentalidades essenciais visando uma cultura inovadora, a empresa deve também identificar os fatores que as inibem, para, assim, remover as resistências ao processo de inovação. Vamos a eles.

Criatividade

Além de ser mola propulsora do empreendedorismo, a criatividade é responsável também pela criação do valor estético no mundo, que na minha opinião é uma das dimensões mais valiosas da nossa existência. Assim, além do empreendedorismo e da inovação, a criatividade é também mãe das artes.

No entanto, criatividade é uma habilidade humana – portanto, não existem empresas criativas, existem apenas pessoas criativas. Uma organização, para ser criativa, precisa ser formada por pessoas criativas. Empresas podem estimular a criatividade dos seus colaboradores e proporcionar metodologias para sua implementação na solução de problemas, tornando-se inovadoras. Portanto, as pessoas são criativas, e as empresas inovadoras. Assim, o foco da criatividade é o ser humano, e acredito que existem 2Ps principais inibidores da criatividade: preconceito e preguiça.

Preconceito nada mais é do que um conceito preestabelecido sobre algo, ou seja, é aquilo que acreditamos que as coisas sejam – é a nossa visão de mundo regida por um paradigma que conhecemos. O preconceito estabelece uma zona de conforto pois traz o sentimento do familiar, do pertencimento e da minimização do erro, criando, assim uma zona de segurança psicológica. Por outro lado, entretanto, o preconceito rotula tudo o que conhecemos e não nos deixa ver de outra forma, inibindo, assim a criatividade. Obviamente é fácil mudar crenças e percepções, mas uma maneira eficaz para lutar contra o preconceito é questionar constantemente os padrões estabelecidos, perguntando, por exemplo: “por que isso é assim e não assado?”, “o mais isso poderia ser?”, “por que não?” (ao invés de “por que”), “por que penso assim?” etc. As regras de mundo em que acreditamos (paradigmas), e que geram os nossos preconceitos, foram aprendidas por meio do que eu chamo de “4Ps do Preconceito”: nossos Pais, Professores, Patrões (empregadores) e Parceiros (amigos). Entretanto, a história ensina que muitas vezes (mais do que gostaríamos), essas mentalidades são erradas: a escravidão já foi considerada normal, assim como ofertas de sacrifícios humanos, entre inúmeras outras atrocidades durante a evolução humana. Assim, o fato de algo ser normal ou ensinado, não significa que é certo ou que não poderia ser feito de outra forma.  Mude os seus paradigmas, e o seu mundo muda. Amplie os seus paradigmas e o seu mundo se expande.

A preguiça talvez seja o agente que mais tenha matado ideias na história da humanidade. De nada adianta se ter ideias se não as desenvolvemos. O processo de refinamento de ideias requer pensamento crítico e esforço intelectual. As ideias não se formam por uma obra do acaso que repentinamente surgem em nosso cérebro. Ideias requerem associação, combinação, reestruturação, eliminação e manipulação de repertórios, que só são adquiridos pelo ser humano por meio de experimentação e estudos. Por isso pessoas criativas são curiosas, experimentam, tentam, pensam. Vencer a preguiça intelectual é o primeiro passo fundamental para estimular a nossa criatividade e garantir a sobrevivência das ideias geradas.

Método

Pense no melhor jogador de futebol do mundo. Ele provavelmente possui todas as habilidades que o fazem vencer – conhece as regras do jogo, tem preparo físico para 90 minutos de corrida em campo, segue a estratégia definida por um treinador fixo e conta normalmente com a parceira e habilidades complementares dos mesmos jogadores do time. Assim, atuando da mesma forma desde o início da sua carreira, esse jogador consegue sucesso. O mundo dos negócios, até recentemente, era muito parecido com o futebol, e empresas que atuavam da mesma maneira por décadas conseguiam continuar obtendo resultados. No entanto, imagine que durante uma partida de futebol, as regras pudessem mudar constantemente e cada vez mais rápido, o campo aumentasse ou diminuísse de tamanho de uma hora para outra, a duração do jogo variasse para 30 minutos e depois para 2 horas, os seus companheiros e o técnico fossem substituídos a cada 5 minutos?  Será que nesse tipo de jogo, aquele jogador campeão continuaria tendo sucesso? Se ele continuasse a atuar do mesmo modo que antes, provavelmente não. Para vencer com novas regras, ele precisaria não apenas aprende-las, mas também, e principalmente, se preparar para atuar regido por elas. Por exemplo, se a duração do jogo diminui e o tamanho do campo aumenta, será necessário outro tipo de preparo físico; se passar a não existir mais impedimento, as estratégias para alcançar e defender o gol devem ser repensadas e reestruturadas. Se essa ainda não é a realidade no futebol, ela já é no mundo hoje. Para vencer em um jogo cujas regras mudam constantemente e cada vez mais rápido precisamos nos adequar para jogar na mesma velocidade enquanto reaprendemos o jogo e criamos novas estratégias para superar as dificuldades e melhorar resultados. Isso é o método.

Os maiores inimigos do método são o achismo e os atalhos. Métodos são constituídos de processos, que precisam ser dinamicamente revisitados. No entanto, esses processos requerem estruturação fundamentada para se articularem adequadamente e gerarem resultados.

Integração

De nada adianta metodologia e criatividade trabalhando independentemente – elas precisam de integração para gerar inovação. No entanto, para integrar duas coisas é preciso vencer as barreiras entre elas e criar pontes para conectá-las (infraestrutura humano-tecnológica). Um dos principais fatores geradores de barreiras é o individualismo que nos separa. Inovação requer humildade e foco no todo. O orgulho preocupa-se com “quem” está certo; a humildade se preocupa com “o que” está certo.

Dessa forma, empresas e pessoas que consigam combater constantemente o preconceito & a preguiça, os achismos & atalhos e o individualismo, tendem a ser aquelas que alcançam mais rapidamente o caminho da inovação.

 


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