Sua empresa está pronta?


08/07/2015 - Revista Desenvolve SP - 3ª edição - Págs. 24 a 27

Ontem, a sustentabilidade era um diferencial de mercado. Hoje, é uma questão de sobrevivência

Imagine uma empresa que fabrica um produto da mesma forma há 30 anos. Agora pense essa mesma empresa sendo obrigada a remodelar sua produção. É isso o que, mais cedo ou mais tarde, todas as companhias terão de fazer. O responsável pela mudança tem nome: sustentabilidade ambiental. Como cada empresa vai se adaptar a essa nova realidade será a diferença entre manter o negócio ou fechar as portas.

A busca do equilíbrio entre o que uma empresa usa de recursos para sua produção e o que ela descarta de resíduos já deixou de ser um diferencial de mercado e está se tornando necessidade. A escassez de recursos antes abundantes como água e energia, por exemplo, e a preocupação crescente com a destinação de resíduos colocaram palavras como desperdício, economia e reciclagem na agenda das empresas.

Há décadas utilizando mais recursos naturais do que o planeta é capaz de repor, as empresas se veem agora obrigadas a repensar seu atual modelo de gestão. Não basta apenas a boa vontade dos gestores à frente das companhias, é preciso reavaliar as atitudes e implantar mudanças profundas. Se bem elaboradas, as soluções podem até gerar mais lucro para a empresa.

Ao contrário do que muitos imaginam praticar gestão sustentável não é difícil e onera pouco o caixa da empresa. Na verdade, agrega valor à marca e amplia a margem de lucro do empreendimento. “As empresas precisam entender que ao criar soluções inovadoras para resolver os problemas dos resíduos elas podem aumentar seu lucro”, alerta o físico José Goldemberg, ex-reitor da USP e presidente do Conselho de Sustentabilidade da Fecomercio-Sp.

Segundo Goldemberg, um exemplo de ação sustentável que poderia gerar lucro é o descarte correto de resíduos eletrônicos. Ele cita um acordo realizado pelas companhias de telefonia celular com o governo de São Paulo. Elas recolhem e encaminham aparelhos inutilizados para um centro de distribuição, mas apenas as baterias passam pelo processo de reciclagem, o restante dos resíduos é encaminhado para os Estados Unidos. “Falta infraestrutura tecnológica para reciclagem desse tipo de resíduo no Brasil”, afirma.

De acordo com o físico, em 2001, o Serviço Geológico dos Estados Unidos publicou um estudo relatando que uma tonelada métrica de computadores descartados contém mais ouro que o obtido em 17 toneladas de mineração. “Quando o Brasil envia os celulares para Chicago, quantos metais preciosos estão sendo perdidos?”, pondera Goldemberg.

A preocupação com o meio ambiente começou tarde no Brasil. O compromisso de reduzir as emissões de gases causadores do efeito-estufa, por exemplo, foi oficializado perante a Organização das Nações Unidas (ONU) somente em 2009, com a criação da Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC). Já a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que obriga as empresas a se responsabilizarem pelo gerenciamento de resíduos, entrou em vigor no País um ano depois, quando na Europa já era adotada havia quase de 20 ano.

Mudar para crescer

Na correria do dia a dia não é tão simples enxergar a necessidade de mudança na forma de produção, muito menos identificar oportunidades de negócio com a economia de recursos. “Falta consciência e visão de longo prazo. Preocupadas em pagar as contas, as empresas esquecem que, se economizassem recursos e evitassem desperdícios, economizariam dinheiro para investir constantemente em melhorias do próprio negócio”, diz Fábio Magina, consultor de empreendedorismo sustentável.

No Estado de São Paulo, a Emibra, fabricante de embalagens em papel-cartão é referência quando o assunto é gestão sustentável. Instalada em Suzano desde 1974, a manutenção constante de sua linha de produção para evitar o consumo excessivo de energia e a geração de resíduos é uma rotina obrigatória da empresa. Produzindo cerca de 800 toneladas de produtos por mês, utiliza como matéria-prima produtos sustentáveis, como tintas à base de óleos vegetais e cartões certificados pelo selo FSC, que assegura e rastreia a origem do papel.

“Investimentos são necessários, mas não é um ato que nos gere sacrifícios. Muito antes de nos certificarmos na ISO 14001 já tínhamos responsabilidade socioambiental, pois acreditamos que com nossas ações podemos fazer muito pela sustentabilidade do planeta”, diz Suzi Silva, responsável pelo setor de qualidade e meio ambiente da Emibra.

Com um programa de coleta seletiva, a empresa recolhe, separa e doa todos os resíduos recicláveis oriundos de seu processo de produção para uma cooperativa da cidade. Já os resíduos perigosos são encaminhados para um fornecedor homologado e licenciado. “Além de tudo, ser uma empresa ambientalmente correta é um atrativo para nossos clientes, que reconhecem nossas iniciativas, e nos coloca à frente da concorrência”, afirma Vinicius Nascimento, gerente comercial.

A Ypê, fabricante nacional de produtos de limpeza, investe constantemente em tecnologia para minimizar seu impacto produtivo no meio ambiente. Com a diminuição do consumo de matéria-prima para a composição de suas embalagens plásticas, de papel e papelão, a empresa afirma ter poupado cerca de 8.500 toneladas de insumos, desde 2009. “Esses números representariam hoje cerca de 59 mil árvores economizadas e cerca de 182 milhões de frascos de detergente a menos produzidos”, diz Cinthia Hax, gerente de meio ambiente da empresa.

Para preservar a água, a Ypê conta com programas de racionalização de consumo adotado por todas as suas unidades produtivas. Nos últimos quatro anos, somente em sua sede, em Amparo, interior paulista, a empresa diz ter conseguido redução de 8% na captação de água do Rio Camanducaia, mesmo tendo aumentado sua produção em 6% no mesmo período.

“Nessa unidade, contamos com dez tanques capazes de estocar 8.000m³ de água de chuva. Nesses tanques, em 2014, que teve índice pluviométrico de 877 mm, conseguimos captar água suficiente para abastecer cerca de 20 mil pessoas durante 30 dias”, conta Cinthia. Além disso, a empresa foi pioneira na produção de lava-roupas em pó isento de fosfato, que ajuda na preservação do oxigênio das águas, e na de amaciantes concentrados, feitos com 80% menos de água.

Não é lixo, é negócio

O que muitos enxergam como lixo outros consideram oportunidade de negócio. Foi a partir desse olhar empreendedor que Egídio Buso fundou a Recinert Ambientale, empresa paulista que atua há sete anos com a reciclagem de resíduos da construção civil. Ao perceber a dor de cabeça que os entulhos causavam a todas as partes envolvidas numa construção, o empresário decidiu investir na importação de uma máquina italiana que tritura esses resíduos, transformando-os em brita para ser reutilizada, por exemplo, na pavimentação do solo da própria obra.

Segundo Vinicius Buso, filho de Egidio, o começo não foi fácil. “De forma geral, a preocupação com o meio ambiente no Brasil é recente. Só depois de muita insistência, da apresentação de estudos de viabilidade econômica para que contratassem nossos serviços e do boom imobiliário que houve em São Paulo é que conseguimos iniciar esse mercado por aqui”, diz.

Hoje, depois de assinar contratos com as 20 maiores construtoras do País, a Recinert Ambientale recicla cerca de 100 mil m³ de entulhos todos os anos. A fim de dar conta da demanda, buscou recentemente a Desenvolve SP para financiar a compra de novas máquinas. “Transformamos o problema do descarte dos entulhos e resíduos da construção civil em atividade sustentável, gerando redução de custos para nossos clientes e receita para nós”, ressalta Vinicius.

Logística reversa

Para dar certo, a responsabilidade ambiental precisa ser compartilhada. É nesse contexto que se baseia o conceito da logística reversa, uma das principais bandeiras da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que busca reverter o problema do descarte incorreto de resíduos no meio ambiente, agravado ainda mais após a produção em larga escala das embalagens descartáveis e do aumento do consumo pela sociedade.

Para explicar de forma simples, esse sistema de “ciclo inverso” segue um modelo semelhante ao que já foi usado no Brasil com as antigas garrafas de vidro, como as de leite, cerveja ou refrigerante. Para comprar esses produtos, os consumidores precisavam entregar aos comerciantes as garrafas vazias. Os fabricantes, por sua vez, as recolhiam e reintroduziam na linha de produção para que pudessem reabastecer o comércio.

Nem tudo é o que parece

Até para adotar iniciativas sustentáveis é necessário pesquisa e planejamento. Algumas ações que aparentemente geram economia na verdade acabam provocando mais perdas do que ganhos ambientais e financeiros para a empresa. Optar por grandes janelas ou paredes de vidro, por exemplo, pode ser uma delas. Se houver pessoas trabalhando no local ou equipamentos que precisem de resfriamento, a incidência do sol será direta e haverá a necessidade de compensar aumentando a temperatura do ar-condicionado.

Os consumidores também estão mais atentos às empresas que oferecem sustentabilidade como valor de seus produtos. “Procuro tudo em sites de instituições competentes, blogs, fóruns e redes sociais, pois muitas marcas praticam o chamado greenwashing, uma ‘maquiagem verde’ de seus produtos e processos, quando, na verdade, não há nada de sustentável neles”, diz Bianca de Sardi, designer e consumidora de produtos sustentáveis.

No futuro, todas as empresas precisarão se adaptar a essa nova realidade. A atitude que cada empresário terá frente às mudanças definirá se seu negócio vai prosperar ou encolher. Planejamento, gestão e capacidade de enxergar oportunidades serão ainda mais fundamentais para que as empresas cresçam com sustentabilidade econômico-financeira e, claro, socioambiental.

Logística Reversa: como funciona na Europa

1. Logística Reversa: é o retorno de produtos recicláveis ao início da cadeia como forma de matéria-prima.

2. O processo: Entidade gestoras, licenciadas pelo governo, recolhem os resíduos, descartando-os da forma correta em ambientes adequados.

3. A Reciclagem: São as indústrias que financiam a reciclagem. Dessas empresas só podem ser vendidos produtos com o selo “Ponto Verde”, que certifica a correta gestão ambiental de toda a cadeia produtiva.

4. O Governo: O governo oferece linhas de crédito e incentivos fiscais para as empresas se adequarem ao processo e informa ao comércio o valor que elas pagam por embalagem.

5. O consumidor: quem compra os produtos com o selo Ponto Verde paga um pequeno valor já embutido no preço que, em larga escala, garante a manutenção de todo o sistema.

Fonte: http://www.desenvolvesp.com.br/comunicacao/revista-desenvolve-sp/revista-desenvolve-sp-edicao-3/


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