Criptomoedas: risco ou oportunidade?


16/11/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

A falta de regulação e a alta volatilidade das moedas digitais obrigam investidores a ficarem sempre alertas, mas empresas já começam a enxergá-las como uma vantagem competitiva

Por Luís Veloso

Foi em 2017, ao registrar alta de mais de 1.300% em apenas um ano e chegar a ser negociado a US$ 62.564, que o bitcoin se tornou mais conhecido mundialmente. Até então, a principal criptomoeda do planeta estava no radar de um número restrito de investidores e entusiastas da tecnologia. Mas a hipervalorização chamou atenção para seus riscos e oportunidades, levando o assunto para o centro do debate do mercado financeiro. Menos de um mês depois do recorde positivo, a cotação do bitcoin caiu mais da metade, o que ampliou as preocupações de especialistas do setor acerca da sua volatilidade e da falta de regulação. Mas, afinal, o que são moedas digitais? Elas mexerão com o dia a dia das empresas?

Guto Schiavon, COO da corretora FoxBit, explica que o bitcoin é a primeira moeda virtual descentralizada da história. Nasceu entre 2008 e 2009, a partir da ideia de um programador – ou de um grupo de programadores, não se sabe ao certo – de replicar as propriedades do dinheiro físico no ambiente digital. Depois do bitcoin, esse mercado se expandiu e surgiram outras criptomoedas, como ethereum, ripple, litecoin, dash, monero, NEO e iota. Isso fez com que empresas, e não apenas pessoas físicas, passassem a se interessar por esse tipo de transação. Dell, Microsoft e Tecnisa, por exemplo, já aceitam moedas digitais como forma de pagamento. André Miceli, professor de Gestão de Tecnologias da Fundação Getulio Vargas (FGV), conta que cerca de dois mil estabelecimentos aceitam criptomoedas no Brasil.

Mas não foram apenas as grandes empresas que se engajaram. Negócios menores, como a marca de roupas masculinas Reserva e até mesmo uma marcenaria e um hostel de São Paulo também já enxergam a adoção de criptomoedas como uma vantagem competitiva. “É uma oportunidade de as pequenas e médias empresas aderirem a uma tecnologia inovadora, segura e terem um diferencial em relação à concorrência”, considera Gustavo Chamati, CEO da corretora Mercado Bitcoin. “A partir do momento em que mais estabelecimentos passarem a aceitar pagamento em moedas digitais, gradativamente a sua utilização será mais comum e as pessoas terão mais espaço para usá-las no dia a dia”.

VANTAGENS DAS CRIPTOMOEDAS

De acordo com Schiavon, da FoxBit, o principal benefício para as empresas é o impacto nos custos – tanto no de transação quanto em perdas por fraude –, já que um pagamento confirmado com uma criptomoeda não pode ser revertido. Além disso, as moedas digitais não têm fronteiras. Qualquer pessoa conectada à internet pode pagar por produtos e serviços sem recorrer ao câmbio de moedas e perder dinheiro na operação. Mas Miceli, da FGV, é mais cético quanto aos ganhos no cotidiano. “Do ponto de vista prático, a vantagem neste momento é para quem quer receber ou pagar fora do país, aqui dentro não tem grande diferença porque tem tributação”, alerta. Chamati, da Mercado Bitcoin, acrescenta que ainda há um longo caminho a ser percorrido, que passa “por uma regulação que não seja restritiva e que permita que a tecnologia seja explorada em seu potencial máximo”.

TECNOLOGIA INOVADORA

Há uma tecnologia inovadora por trás das criptomoedas: o blockchain. Por meio dele, usuários confirmam transações pela internet sem a necessidade de passar por uma instituição financeira ou qualquer outro intermediário. A integridade da cadeia de blocos que forma esse sistema é protegida por criptografia. Fazendo uma analogia simples, o blockchain seria uma espécie de planilha de Excel pública, onde todas as transações com criptomoedas são inscritas de forma cronológica, encadeada e pseudoanônima. Não é possível apagar ou alterar qualquer registro. Por ser público, o blockchain pode ser acompanhado e auditado por qualquer pessoa, em um processo conhecido como mineração.

ALTA VOLATILIDADE

As transações em si são seguras e certificadas pelo blockchain. O principal problema, no momento, é a alta volatilidade das criptomoedas. “A cotação do bitcoin saiu de 21 mil dólares em meados de março para 6,7 mil dólares um mês depois”, ressalta Miceli, da FGV. Mas há alternativas para as empresas lidarem com esse risco. “Um lojista, por exemplo, pode utilizar um gateway de pagamento, que converterá a criptomoeda em real no mesmo instante, cobrando taxas bem menores do que as administradoras de cartão”, observa Schiavon, da corretora FoxBit.

FALTA REGULAÇÃO

Não há consenso, contudo, sobre os benefícios do avanço das moedas virtuais. O Banco Central do Brasil se posicionou contra esse tipo de transação, observando que o valor das criptomoedas “decorre exclusivamente da confiança conferida pelos indivíduos ao seu emissor”. A instituição alertou ainda para o seu possível uso para financiar atividades ilícitas, a falta de regulamentação e de supervisão de uma autoridade monetária legal, além de as moedas digitais não serem referenciadas em reais ou em outra moeda de um governo soberano.

COMO ADERIR AO BITCOIN

Tanto para investir em bitcoins quanto para fazer pagamentos é necessário baixar um aplicativo chamado Carteira Bitcoin, que armazena as moedas digitais e permite a negociação. Para receber a criptomoeda, a empresa precisa ter uma conta digital específica. A transação, feita por meio do software, dura cerca de 10 minutos para ser confirmada. O montante é creditado imediatamente na conta bitcoin do empresário, que pode aguardar uma possível valorização ou trocar por moeda nacional com uma casa de câmbio virtual. Para garantir que a transação seja validada e aconteça de forma correta e segura, é preciso que seja supervisionada. Quem faz esse trabalho é conhecido como minerador. Ele tem a função de monitorar e unir as transações comerciais às demandas do sistema operacional.

 

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p.20


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