Criatividade como estratégia


23/11/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

Modelo de liderança em que a postura do gestor está alinhada a conceitos como disrupção e inovação ganha relevância em um mundo onde os negócios estão mais competitivos e voláteis

Amanda Sena

Certamente você já ouviu expressões como “liderar não é para todos” ou “fulano é um líder nato”. Mas já parou para pensar o que faz de alguém ser um líder de ponta? Não basta ter nascido talhado para comandar. Características tradicionais, como foco e competitividade, não são garantias de sucesso nos dias de hoje. Tanto que cada vez mais empreendedores – de startups a grandes organizações –, estão apostando na liderança criativa, em que a postura do gestor está alinhada a conceitos como disrupção e inovação. Um líder criativo é capaz de perceber mudanças, se abrir para pontos de vista diversos, aplicar novas tecnologias, antecipar estratégias, usar a intuição, se arriscar e valorizar a equipe. Marcelo Pimenta, professor de Gestão da Inovação e Design Thinking da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), frisa que a liderança criativa “se opõe a uma visão estática da vida, da economia e das pessoas”.

Inovação, ousadia e visionismo são as características mais importantes de um líder criativo, salienta Carlos Titton, professor de pós-graduação em Gestão Empresarial, Marketing e Vendas da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). “O líder criativo tem uma visão que excede o que as pessoas regulares veem. Enxerga as coisas com outros olhos, vai sempre além, com uma naturalidade peculiar”, acrescenta. Como palestrante e consultor, Titton já trabalhou com gigantes como Philips, Votorantim, Amanco, Goodyear, Pepsico e Bradesco. Em suas empreitadas, percebeu que é preciso quebrar barreiras para botar em prática novas ideias. “Diversas vezes eu ouvi: ‘já tentamos isso no passado e não deu certo’. Não estou dizendo de maneira nenhuma que devemos ignorar as experiências anteriores, mas acreditar que eventualmente podemos desafiá-las de formas criativas”, pontua.

QUEBRA DE PARADIGMAS

Empenhar-se na transformação – e não na manutenção do status quo –, se tornou fundamental para destacar-se no mercado. Um estudo feito recentemente pela IBM com mais de 1.500 CEOs e grandes executivos de 60 países e 33 setores mostra que 79% deles acreditam que a complexidade e a volatilidade dos negócios aumentaram substancialmente e que, por isso, a adoção dos princípios de liderança criativa será essencial para reinventar o relacionamento com os clientes e formar destreza operacional. O Copenhagen Institute for Future Studies, fundado em 1970 na Dinamarca por Thorkil Kristensen, ex-ministro de Finanças e ex-secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), vai além. Estima que metade das 500 maiores empresas americanas serão superadas justamente pela falta de liderança criativa.

A quebra de paradigmas também é um dos principais traços apontados pelo artista gráfico americano Erik Wahl, autor do bestseller Unthink: Rediscover Your Creative Genius. De acordo com o autor, transformações são constantes, sejam elas na natureza, na política ou nos negócios. A única constância é a inconstância. Para ser um líder criativo, reforça Wahl, é preciso provocar a mudança, mesmo que os demais não a acompanhem de imediato. Titton concorda. “No início talvez te chamem de louco, de diferente. Mas quando as coisas funcionam bem graças à criatividade e à inovação, as pessoas serão atraídas naturalmente”, afirma. E completa, “o líder criativo consegue engajar a equipe com ações ou soluções que ninguém pensou antes. E, com isso, se torna uma referência para os demais”.

DESAFIO CONTÍNUO

A boa notícia é que mudar e se aperfeiçoar é possível. “Qualquer pessoa pode desenvolver o pensamento criativo”, salienta Leo Rosa Borges, brasileiro radicado em Los Angeles, Estados Unidos. Diretor criativo associado da Saatchi & Saatchi, rede global de agências de publicidade, e premiado sete vezes em Cannes, ele escreveu recentemente um e-book abordando técnicas criativas que podem ser aprendidas, como exercitar a mente para ter grandes ideias e como transformá-las em realidade. Notáveis como Pablo Picasso e Banksy são lembrados na obra. “Faço uma provocação para brincar com a tensão que existe entre os conceitos de originalidade e criatividade. Porque, como aconteceu com esses artistas, uma nova ideia pode ser inspirada em algo que já foi feito, mas ainda assim ser diferente”, explica.

As oportunidades, contudo, não estão restritas às artes. “Criativo é quem cria algo: uma empresa, um serviço, um produto, um processo”, observa o publicitário. Podem ser inovações complexas, que influenciam a economia internacional, ou singelas, como na organização de uma coleção de figurinhas. Embora acredite que todas as pessoas nascem criativas, Rosa Borges reconhece que é frequente esse potencial ser tolhido ao longo da vida. “Mas a criatividade pode ser reaprendida e praticada”, sublinha. “Isso é importante sobretudo no universo corporativo, onde a repetição de padrões é comum. Muitos gostam do que é comprovado, querem fazer o que já foi feito achando que vai funcionar. Só que esse modelo nunca leva à liderança criativa”.

Praticar a liderança criativa é um desafio contínuo, pois é preciso também empoderar a equipe para dar vazão às ideias e favorecer a cocriação. Abordagens como design thinking, que busca soluções de forma coletiva e colaborativa, são importantes para abrir caminhos para a inovação. “Os jovens tendem a experimentar mais e resistir menos ao novo. Mas a criatividade, enquanto competência, pode estar presente em profissionais mais maduros e ser desenvolvida”, ratifica Titton. Sair da zona de conforto, muitas vezes, é desagradável. Porém é necessário. Se no passado a exigência era de que o líder fosse capaz de engajar os funcionários para que “vestissem a camisa” da empresa, hoje a expectativa é de que ele seja um catalisador de novas ideias, estimulando e integrando diferentes talentos em equipes cada vez mais conectadas e com habilidades diversas.

 

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p. 40


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