Aprendendo com gigantes


30/11/2018 - Revista Desenvolve SP - edição 6

Programas de mentoria de grandes companhias podem ajudar pequenas e médias empresas a melhorar a liderança, rever processos e ganhar competitividade

Por Thalita Pires

“Se você perguntar a qualquer empresário de sucesso, ele sempre dirá que teve um grande mentor”, declarou o inglês Richard Branson. Fundador do Virgin Group, conglomerado com mais de 400 empresas, o magnata disse que, quando decidiu entrar no ramo da aviação, recebeu conselhos preciosos do britânico Freddie Laker, pioneiro das companhias aéreas de baixo custo. Lições que levou também para outros setores. Já o americano Bill Gates, da Microsoft, credita parte de seu êxito aos ensinamentos do investidor Warren Buffett. No Brasil, Jorge Paulo Lemann coleciona discípulos, inclusive seu sócio Marcel Telles na AB Inbev. Cercar-se de pessoas mais experientes é um dos melhores caminhos para identificar problemas, rever processos e ganhar competitividade. Recorrer à mentoria pode, portanto, impulsionar os negócios.

Processos bem conduzidos estimulam tanto o ecossistema empreendedor que potências como Facebook, Visa e Oracle oferecem diferentes tipos de mentorias – como financeira, administrativa e jurídica – para acelerar startups. Outras, como Monsanto, Braskem e Itaú, dão apoio também às pequenas e médias empresas já estabelecidas. “Mentoria é como um apadrinhamento”, explica Igor Piquet, diretor de Apoio a Empreendedores da Endeavor Brasil. “Essa relação ajuda o empreendedor a reduzir seu tempo de aprendizado. Mas os mentores também aprendem quando têm contato com novos negócios e novas ideias”, acrescenta.

Criar espaço para dialogar sobre gestão e estratégias de médio e longo prazos é importante. Muitos empresários, porém, não têm com quem se aconselhar. Pesquisa feita em 2016 pela Endeavor Brasil, em parceria com o Datafolha, mostra que 40% dos empreendedores do país sentem-se sozinhos em meio aos desafios do cotidiano. No grupo de negócios de alto impacto – os que vinham crescendo cerca de 40% ao ano – mais de 45% diziam não ter com quem dividir problemas. Dentre os empreendedores que contavam com essa ajuda, 84% afirmaram que o aconselhamento contribuiu para que fizessem escolhas mais assertivas. Entre as empresas de alto impacto, esse índice salta para 100%.

BUSCANDO SOLUÇÕES

Ilma Pereira Braga se inscreveu no Programa de Mentoria da Monsanto porque enxergou uma oportunidade de alavancar seu negócio. Ela é proprietária da Maro & Mantec que comercializa e faz manutenção de máquinas desde 1990 e está sediada em Campinas, no interior paulista. Mesmo tendo feito carreira na rede de lojas de departamentos Mesbla, onde comandou 550 funcionários, Ilma não conseguia convencer seus sócios a promover mudanças. Foi graças ao apoio externo que eles aceitaram uma série de ajustes: as responsabilidades de cada membro da equipe ficaram mais claras, problemas nas áreas financeira e de processos foram sanados – o que contribuiu para o aumento das receitas – e a comunicação com o público foi melhorada.

O programa do qual Ilma participou prioriza negócios comandados por minorias – pelo menos 50% do capital social dos selecionados é composto por mulheres, negros, indígenas, LGBTs ou pessoas com deficiência. Bruno Abreu, líder de Compras e Relacionamento com Fornecedores na América do Sul da Monsanto, salienta que fomentar a diversidade faz parte da política da corporação. “Queremos expandir essa política para a cadeia de fornecimento, ainda que os mentorados não precisem ter, necessariamente, relacionamento comercial conosco”.

IMPACTO SOCIAL

A Braskem também oferece mentoria. Via Braskem Labs Scale busca acelerar soluções na área de química ou plástico que impactem a sociedade em áreas como agronegócio, reciclagem, saúde, transporte, alimentação, água e energia. Entre os critérios de seleção estão inovação, potencial de mercado, perfil do empreendedor e da equipe, modelo de negócio e repercussão socioambiental. O programa é concluído com um Demo Day, quando os participantes podem fazer um pitch para empresários, investidores, bancos de investimento e outros players.

“Na edição de 2017, os participantes foram unânimes: a iniciativa contribuiu para o crescimento de seus negócios”, diz Luiz Gustavo Ortega, líder do Braskem Labs Scale. Naquele ano, 60% receberam investimento ou tiveram conversas avançadas para obter recursos. A Fix It, fabricante potiguar de peças em plástico para imobilização de membros, foi uma das integrantes. Felipe Neves, o proprietário, conta que a mentoria foi fundamental na definição do material usado hoje na produção. “Estávamos em testes e, durante o programa, excluímos várias opções até escolhermos a melhor”, lembra. Ele afirma que a experiência foi um divisor de águas. “Tivemos aulas sobre temas como relacionamento com o cliente, marketing e vendas. Tudo isso também ajudou na maturação da empresa”, garante.

WEB COMO ALIADA

Programas de mentoria convencionais não são a única maneira de ajudar empresários a eliminar gargalos e alavancar os negócios. Há também ferramentas criadas por grandes organizações, como a Endeavor, disponíveis gratuitamente na internet. Outro exemplo é o Itaú Mulher Empreendedora, plataforma que oferece cursos, artigos e apresentações, além de ações presenciais. Atualmente, 54% das microempresas clientes do banco são administradas só por mulheres.

De acordo com o Itaú, as dificuldades mais frequentes apresentadas por elas estão relacionadas à falta de referências de liderança feminina, ao networking escasso e à gestão de pessoas e das finanças. Números do Itaú indicam que aderir à plataforma pode ser positivo, pois empresas que se engajaram apresentaram resultados melhores na sua relação com o banco. As participantes contrataram 130% mais investimento e tiveram uma taxa de inadimplência 5% menor.

 

Fonte: Revista Desenvolve SP – edição 6, p.42


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